Manifestante com um lança-chamas. Ninguém vai chamá-la de “pacífica” (Foto: Ivan Pacheco)
Escrevi neste blog meu primeiro texto sobre
os rolezinhos no dia 13 de janeiro. É curto, meus caros, e vale a pena
reproduzi-lo na íntegra. Mui modestamente, a minha bola de cristal
antecipou o que viria com impressionante precisão. Releiam (em azul).
Esquerdistas bocós (existem os não bocós?)
já estão de olho no “rolezinho”. Aqui e ali, noto a vocação ensaística
de alguns dos meus coleguinhas na imprensa. Já há gente, assim,
treinando o olhar para teorizar sobre mais essa erupção — e irrupção —
da luta de classes. É fácil ser bobo. Fosse mais difícil, não haveria
tantos bobalhões. Daqui a pouco o Gilberto Carvalho chama os teóricos
dos “rolezinhos” para um bate-papo no Palácio do Planalto.
O “rolezinho”, que até pode ter começado
como uma brincadeirinha irresponsável nas redes sociais, está começando a
virar, vejam vocês!, uma questão política — ao menos de política
pública. A coisa pode se tornar mais séria do que se supõe.
Infelizmente, noto que muita gente, inclusive na imprensa, está tentando
ver essas manifestações como se fossem uma espécie de justa revolta de
jovens pobres contra templos de consumo da classe média.
Isso é uma tolice, um cretinismo. Os
shoppings têm se caracterizado como os mais democráticos espaços do
Brasil. São áreas privadas de uso público, muito mais seguras do que
qualquer outra parte das cidades brasileiras. Os pais preferem que seus
filhos fiquem passeando por lá a que façam qualquer outro programa,
geralmente expostos a riscos maiores. É uma irresponsabilidade
incentivar manifestações de centenas ou até de milhares de pessoas num
espaço fechado. Ainda que parte da moçada queira apenas fazer uma
brincadeira, é evidente que marginais acabam se aproveitando da situação
para cometer crimes, intimidar lojistas e afastar os frequentadores.
Esse negócio de que se trata de uma
espécie de revolta dos pobres contra os endinheirados é uma grossa
bobagem. Boa parte dos shoppings de São Paulo, hoje em dia, serve também
aos pobres, que ali encontram um espaço seguro de lazer. A Polícia
precisa agir com inteligência para que se evite tanto quanto possível o
uso da força. É necessário mobilizar os especialistas em Internet da
área de Segurança Pública para tentar identificar a origem dessas
convocações.
É preciso, em suma, chegar à raiz do
problema. As redes sociais facilitam essas manifestações, como todos
sabemos, mas é evidente que elas não são espontâneas. Há pessoas
convocando esse tipo de ação, que pode, sim, como se viu no Shopping
Metrô Itaquera, degenerar em violência.
No dia em que os shoppings não forem mais
áreas seguras, haverá fuga de frequentadores, queda de vendas e
desemprego. E é certo que estamos tratando também de um sério problema
de segurança pública. Num espaço fechado, em que transitam milhares de
pessoas, inclusive crianças, os que organizam rolezinhos estão pondo a
segurança de terceiros em risco.
E que ninguém venha com a conversa de que
se trata apenas do direito de manifestação num espaço público. Pra
começo de conversa, trata-se, reitero, de um espaço privado aberto ao
público, que é coisa muito distinta. De resto, justamente porque os
shoppings têm essa dimensão pública, não podem ser privatizados por
baderneiros que decidiram ameaçar a segurança alheia.
Encerro notando que o Brasil precisa ainda
avançar muito na definição do que é público. Infelizmente, entre nós,
muita gente considera que público é sinônimo de sem-dono. É justamente o
contrário: o público só não tem um dono porque tem todos.
Retomo
Como se pode ver:
1: nego que os rolezinhos tenham um caráter político:
2: nego que os rolezinhos sejam fruto da exclusão social;
3: nem especulo sobre a possibilidade de ser uma criação do PT; é claro que não é!;
4: aponto o óbvio: shoppings são espaços que também servem aos moradores da periferia;
5: afirmo que têm de ser coibidos por uma questão de segurança.
6: O QUE CONDENO NO MEU TEXTO É A
TENTATIVA DAS ESQUERDAS DE POLITIZAR O ROLEZINHO. É PRECISO SER MUITO
BURRO PARA AFIRMAR QUE EU ATRIBUO ESSES EVENTOS ÀS ESQUERDAS. O diabo é
que há gente burra aos montes — e outras tantas de má-fé.
“Setores da imprensa e alguns subintelectuais, com ignorância alastrante, tentaram ver o “rolezinho” como manifestação da luta de classes.” Ou ainda: “Jovens que aderem a eventos por intermédio do Facebook não são excluídos sociais, mas incluídos da cultura digital, que já é pós-shopping, pós-mercadoria física e pós-racial.”
Mais:
“Não se percebia, originalmente, nenhuma motivação de classe ou de “raça” nessas manifestações. Agora, sim, grupos de esquerda, os tais “movimentos sociais” e os petistas estão tentando tomar as rédeas do que pretendem transformar em protesto de caráter político.”
Adiante.
Ônibus é depredado em SP: Carvalho não vai chamar o rapaz para um papinho (Foto: Ivan Pacheco)
Por quê?
Mas por que evoco os rolezinhos? Porque o tratamento que a imprensa, alguns acadêmicos mixurucas e os “progressitas” lhes conferiram revela o espírito do tempo. Deixados os eventos por si mesmos, com a devida contenção quando se fizesse necessária, iriam esmorecer. Os shoppings da periferia são um espaço de lazer das famílias, parentes, amigos, vizinhos — a “comunidade”, enfim — dos rolezeiros. Mas como resistir ao, digamos, “cheiro conceitual dos pobres”? Assim, foram buscar LUTA DE CLASSES onde havia, e há, desejo de ascensão de classe, que é coisa muito distinta.
Mas por que evoco os rolezinhos? Porque o tratamento que a imprensa, alguns acadêmicos mixurucas e os “progressitas” lhes conferiram revela o espírito do tempo. Deixados os eventos por si mesmos, com a devida contenção quando se fizesse necessária, iriam esmorecer. Os shoppings da periferia são um espaço de lazer das famílias, parentes, amigos, vizinhos — a “comunidade”, enfim — dos rolezeiros. Mas como resistir ao, digamos, “cheiro conceitual dos pobres”? Assim, foram buscar LUTA DE CLASSES onde havia, e há, desejo de ascensão de classe, que é coisa muito distinta.
As justas e
corretas mobilizações dos lojistas, das respectivas direções dos
shoppings, dos consumidores e da própria polícia para coibir os eventos
foram tachadas de discriminação racial e de classe. Se me pedissem para
listar os três traços de caráter que mais abomino, um deles é a
demagogia — sim, eu a considero um desvio de caráter. E, infelizmente,
está contribuindo para rebaixar o caráter do país.
Carvalho
No primeiro parágrafo do meu primeiro
texto sobre o rolezinho, leiam lá, antevejo que Gilberto Carvalho vai
meter os pés pelos pés e fará besteira. Batata! Na semana passada, ele
afirmou: “Da mesma forma que os
aeroportos lotados incomodam a classe média. Da mesma forma que, para
eles, é estranho certos ambientes serem frequentados agora por essa
‘gentalha’ (…). O que não dá para entender muito é a carga do
preconceito que veio forte. (…) As pessoas veem aquele bando de meninos
negros e morenos e ficam meio assustadas. É o nosso preconceito“.
Reproduzo agora os dois últimos parágrafos da minha coluna na Folha desta sexta (em azul):
Enquanto a fala indecorosa do ministro circulava, uma turba fechou algumas ruas na Penha, em São Paulo, para um baile funk. A polícia, chamada pela vizinhança, acabou com a festa. Um grupo de funkeiros decidiu, então, assaltar um posto de gasolina, espancar os funcionários, depredar um hipermercado contíguo e roubar mercadorias. Na saída, um deles derramou combustível no chão e tentou riscar um fósforo. Tivesse conseguido… O “Jornal Nacional” relacionou o episódio à falta de lazer na periferia. Pobre, quando não se diverte, explode posto de gasolina, mas é essencialmente bom; a falta de um clube para o funk é que o torna um facínora. Sei. É a luta entre o Rousseau do Batidão e o Hobbes da Tropa de Choque.
Os maiores adversários do PT em 2014 não são as oposições, mas a natureza do partido e os valores que tornou influentes com seu marxismo de meia-pataca e seu coitadismo criminoso. A receita pode, sim, desandar.
Enquanto a fala indecorosa do ministro circulava, uma turba fechou algumas ruas na Penha, em São Paulo, para um baile funk. A polícia, chamada pela vizinhança, acabou com a festa. Um grupo de funkeiros decidiu, então, assaltar um posto de gasolina, espancar os funcionários, depredar um hipermercado contíguo e roubar mercadorias. Na saída, um deles derramou combustível no chão e tentou riscar um fósforo. Tivesse conseguido… O “Jornal Nacional” relacionou o episódio à falta de lazer na periferia. Pobre, quando não se diverte, explode posto de gasolina, mas é essencialmente bom; a falta de um clube para o funk é que o torna um facínora. Sei. É a luta entre o Rousseau do Batidão e o Hobbes da Tropa de Choque.
Os maiores adversários do PT em 2014 não são as oposições, mas a natureza do partido e os valores que tornou influentes com seu marxismo de meia-pataca e seu coitadismo criminoso. A receita pode, sim, desandar.
Pronto!
Com o parágrafo acima, chego aos confrontos deste sábado, em São Paulo,
depois de ter caracterizado o AMBIENTE INTELECTUAL em que acontecem.
Olhem o black bloc aí, o dono da rua, certo de que não vai acontecer nada com ele (Foto: Ivan Pacheco)
Direitos e limites
É evidente que as pessoas têm o direito de
não querer a Copa do Mundo no Brasil e de expressar esse ponto de
vista. Mas não o de sair quebrando tudo por aí. Se vocês observarem, até
agora, o governo federal não disse uma palavra firme a respeito. Ao
contrário até: em seus discursos, dentro e fora do Brasil, Dilma passou a
citar as manifestações como exemplos de democracia. Não são!
Dia sim,
dia também, movimentos de sem-teto, por exemplo, paralisam áreas da
cidade. E o que eles querem? Que parte das casas construídas pelo poder
público seja destinada a seus militantes — e, atenção!, será. É evidente
que isso é um despropósito e caracteriza uma espécie de desvio de
recursos públicos para entidades que são, não dá para fingir que não, de
caráter privado. Ao ceder a pressão, o que se faz é endossar um método.
A desordem
e o confronto estão se transformando em métodos aceitáveis de
expressão, seja da alegria, seja da reivindicação política. Não! Não
antevejo o caos; não acho que o Brasil caminhará para o buraco por isso;
não acredito que estaremos nas cavernas daqui a pouco — não sou, em
suma, apocalíptico. ATÉ PORQUE, LEITOR, O APOCALIPSE NÃO CHEGA — nem no
Haiti ou no Sudão. Mas é claro que se vai construindo, com determinação e
método, as condições de um atraso perene.
“Se o
Brasil fosse menos desigual, isso não aconteceria”, repetem por aí.
Bobagem! As manifestações violentas havidas no país a partir de junho
não tiveram — como não teve o evento de ontem —, caráter popular. Foram
lideradas por radicais mais ou menos endinheirados.
O que não
existe no país — aí, sim — são líderes políticos que tenham a coragem de
falar em defesa da ordem. De qual ordem? A da democracia e do estado de
direito! O que lhes parece? Ao contrário: incentiva-se a desordem.
Vejam o caso da ação do Denarc na Cracolândia. O prefeito Fernando
Haddad convocou uma entrevista coletiva para atacar a polícia e não
disse uma única palavra de solidariedade aos policiais que foram
agredidos por um bando de dependentes. Atenção! Estava cumprindo o seu
dever: foram lá prender traficantes.
Amarro as
pontas para quem, eventualmente, até aqui, ainda não uniu os vários fios
deste texto: o incentivo à desordem no país vem hoje de homens e
mulheres que ocupam posição de relevo nos Poderes Constituídos, seja por
meio de palavras irresponsáveis, como a de Gilberto Carvalho, seja pelo
silêncio. E não é diferente com entidades da sociedade civil que já
chegaram a se destacar pela defesa da ordem democrática.
A OAB-RJ e
a Comissão de Direitos Humanos da OAB nacional exerceram um papel
detestável, vergonhoso, na proteção aos tais black blocs no Rio, por
exemplo. Quando policiais de São Paulo enquadraram, por bons motivos,
dois indivíduos na Lei de Segurança Nacional — que deixou de ser “coisa
da ditadura” quando foi, na prática, recepcionada pela Constituição
democrática (ou não foi?) —, fez-se uma gritaria dos diabos. Alguns
vagabundos vão para as ruas para quebrar tudo na certeza de que nada vai
lhes acontecer — e, de fato, nada tem acontecido.
Encerrando
Começo a concluir lembrando que, até que
se chegasse àquele confronto do dia 13 de junho do ano passado em São
Paulo, que, por assim dizer, “nacionalizou” as manifestações, houve três
protestos violentos, com depredações, coquetéis molotov e incêndio a
ônibus: nos dias 6, 7 e 11 de junho. A arruaça correu solta, e a Polícia
Militar só apanhou dos “manifestantes”. Quando reagiu, vocês sabem o
que aconteceu. É história. Fiz uma pequena memória daqueles dias aqui.
Não! O PT
não inventou junho nem inventou os rolezinhos — e, obviamente, não será o
criador de possíveis novos distúrbios na Copa. O que o partido e seus
capas-pretas fizeram e fazem é flertar com a desordem — quando não a
insuflam. Nunca é demais lembrar que os petistas Gilberto Carvalho e
Luíza Bairros (ministra da Integração Racial) não hesitaram um minuto em
jogar “negros e morenos” (Como disse Carvalho) contra brancos no caso
dos rolezinhos. Convenham: é preciso ser de uma espantosa
irresponsabilidade para brincar assim com o perigo.
O
incentivo à desordem no país vem hoje do Palácio do Planalto e do PT —
ainda que o problema possa cair no colo do partido e do governo. Ocorre
que essa gente, como o escorpião, tem uma natureza.
Por Reinaldo Azevedo
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