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Canaã não está preparado para enfrentar crescimento populacional


No ano 2000, quando era um município "Zé Ninguém" no mapa da economia nacional, Canaã dos Carajás tinha Produto Interno Bruto (PIB) que mal chegava a R$ 28 milhões. Era uma riqueza tão pífia que correspondia a quatro vezes menos o que a população do Bairro de Morada Nova, em Marabá, tem para gastar este ano.
O tempo passou. Em 2004, Canaã recebeu o Sossego e sua economia deu uma reviravolta de 360 graus. Uma década depois, o PIB de Canaã chegou à cifra impressionante de R$ 1,56 bilhão, um crescimento de 5.520% no período e dado sem igual no país. A título de comparação, a taxa de crescimento econômico do Brasil foi de 219,6%; a do Pará foi de 308,6%; e a de Parauapebas, 928,5%.
Atualmente, a dificuldade é conciliar o surto de crescimento a reboque de grandes projetos com a explosão demográfica por que passa o município, que, entre os censos de 2000 e 2010, se tornou o oitavo a receber mais novos moradores, proporcionalmente, entre todas as localidades do país. Em 2013, num universo de 5.570 municípios, Canaã assumiu a dianteira de maior taxa de crescimento demográfico, notadamente pela perspectiva de empregos na fase de implantação do S11D.
A consultoria Golder Associates, responsável por elaborar o EIA do projeto para a Vale, aponta que apenas na etapa de implantação, cujo 
start-up foi dado no mês de julho deste ano, 3.135 postos de trabalho diretos serão criados em Canaã. Isso mesmo: diretos. No pico das obras, em 2015, serão necessários 5.271 operários. De todas as vagas, 39,4% serão para pedreiros, carpinteiros, armadores, montadores, soldadores, eletricistas e mecânicos, informa a consultoria.
Sabendo-se que hoje a taxa de desemprego em Canaã está na casa de 10,15% entre a população maior de 18 anos e que, assim, existem 1,3 mil desempregados no município, sem dúvida a mão de obra necessária para dar vida ao S11D acabará por ser importada nos próximos três ou quatro anos. Haverá, então, um incremento de 8 mil trabalhadores em Canaã, sem contar as famílias destes que, certamente, deverão acompanhá-los.
Está anunciada a explosão demográfica que já pode ser conferida em rodoviárias paraenses e maranhenses, dada a quantidade de trabalhadores do sexo masculino que têm se mandado à "Terra Prometida". 



ENCOLHEU E EXPLODIU 


No estudo do engenheiro de minas Rafael Cuentro, é recontada a história da dinâmica populacional de Canaã dos Carajás, curiosa pelos números que trazem consigo. No primeiro censo demográfico realizado em Parauapebas, em 1991, Canaã – que lhe era distrito – tinha apenas 6.933 habitantes. No Censo 2000, já independente, Canaã registrou 10.922 moradores, número que disparou para 26.716 residentes em 2010. Nos últimos três anos, a população municipal aumentou em cerca de 4,5 mil pessoas, o equivalente à metade do Estádio Rosenão, em Parauapebas, lotado de pessoas fazendo as malas rumo à "Terra Prometida". Em 2013, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) calcula para Canaã 31.062 habitantes.
Mas na história de quase 19 anos de jovialidade da "Terra Prometida" o que se viu com sua sede urbana foi um fenômeno único em todo o Brasil. É que a cidade deixou de ser a que mais perdeu habitantes no país para tornar-se a que, proporcionalmente, mais ganhou. E tudo isso em menos de duas décadas.
O antigo Centro de Desenvolvimento Regional (Cedere) 2 viu sua população urbana decrescer de 6.998 pessoas em 1996 para 3.924 moradores quatro anos depois. Dez anos mais tarde, a sede municipal que havia encolhido quintuplicou de tamanho, passando a 20.727 residentes. Este ano, a cidade de Canaã chegou a 24.850 moradores, o que lhe confere média de incremento populacional de mais de mil novos moradores ao ano, uma afronta à infraestrutura, que corre o risco de repetir os mesmos desacertos de Parauapebas, cidade que atualmente paga os pecados pela desordem demográfica de que fora vítima.
Na minúscula Canaã, que se expande a oeste, seis agências bancárias se estabeleceram estrategicamente a fim de garantir lugar em meio às carteiras de uma massa trabalhadora superprodutiva e que faz da mineração local a que melhor remunera no segmento da indústria extrativa do Norte e Nordeste. Nem algumas cidades paraenses três vezes maiores que Canaã e bem mais antigas têm o privilégio de ter tantos bancos à disposição. O setor financeiro está de olhos abertos no filão do consumo em que se transformará a "Terra Prometida" ainda esta década.
O momento é tão bom na vida econômica do município que o prefeito Jeová Andrade anunciou até um aumento estratosférico de 25% nos salários dos servidores municipais, o maior acréscimo aos proventos já registrado por um administrador público no Estado em tempos modernos.
Não se sabe, porém, se a prefeitura vai ter o mesmo fôlego para enfrentar a miríade de problemas sociais que deverá bater a sua porta ao longo dos próximos anos com o anúncio de S11D, que tem alargado a PA-160 na romaria migratória rumo a Canaã e cuja vereda fora aberta ainda em 2004, com o projeto Sossego

DESORDEM E PROGRESSO 

Hoje, nas rodoviárias de Belém, Marabá e de alguns municípios maranhenses, como São Luís, Imperatriz e Santa Inês, não se fala mais em ir a Parauapebas, com a mesma intensidade de outrora. Fala-se em Canaã dos Carajás. Até mesmo em Parauapebas, muitos moradores estão alugando ou vendendo imóveis para investir na cidade vizinha. A especulação imobiliária lá subiu às nuvens em 2013, enquanto em Parauapebas despencou, embora ainda continue alta. Na "Capital do Minério", quem sorria às paredes ao alugar casa a empregados de "gatos", empresas terceirizadas da mineradora Vale, agora tem de anunciar o imóvel até pela metade do preço, e sem chorar. O que era quase impossível ou impensável anos atrás está abalando as estruturas com força. E era tecnicamente previsível.
Em seu TCC, Rafael Cuentro estimou o aumento da população de Canaã e constatou que em 2017, quando o S11D estiver a todo vapor, a população saltará dos atuais 31 mil habitantes para 49 mil. Só a cidade crescerá dos atuais 25 mil para 42 mil. É como se nos próximos quatro anos Canaã se unisse a Curionópolis em tamanho. Proporcionalmente, nada visto na história do Pará.
Em 2030, a população de Canaã deve alcançar 167 mil habitantes, 150 mil dos quais na área urbana, e alcançar a de Parauapebas até 2040. Até lá, mantido o cronograma da Vale para S11D e com as frentes de expansão minerárias previstas, inclusive com a abertura de novos projetos no município, como o do Corpo 118 Oxidado, de extração de cobre e ouro, a receita da hoje pequenina "Terra Prometida" deverá se tornar a mais poderosa do Estado e uma das 20 maiores do Brasil.
Se os planos da mineradora falharem, entretanto, uma sociedade inteira estará condenada a mazelas que já se desenrolam agressivamente na atualidade. Isso porque na realidade de Canaã são constatados elevados índices de violência, de população periférica, de acidentes de trânsito, de crianças trabalhando, de pessoas abaixo da linha da pobreza, de mortalidade infantil, de estudantes em série incompatível com a idade e de ruas sem asfalto. O tempo, como apregoa a máxima, será indiscutivelmente o senhor da razão.

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