Vocês já
leram o que o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), declarou
sobre Luiz Inácio Lula da Silva? Antes de chegar lá, algumas
considerações.
Já escrevi
vários textos neste blog demonstrando como o PT “modernizou” a velha
impunidade no Brasil. Surgido com a aura de partido operário, uma vez no
poder, consolidou a sua maioria no Congresso juntando-se ao que havia
de pior na política brasileira. Aquela reputação, então, de partido das
massas serviu para lavar a reputação de gente como José Sarney e
Fernando Collor e para tentar macular a honra de pessoas decentes que
decidiram resistir ao partido. É nesse ambiente que a República assistiu
a um pacto realmente histórico, que não tinha o Brasil como preocupação
central: entre Luiz Inácio Lula da Silva e José SarneyO primeiro queria a influência do segundo para consolidar a hegemonia de seu partido; o segundo queria a lavanderia de reputações do primeiro para “limpar” a própria biografia e um salvo-conduto que mantivesse seus próprios interesses e os de seu grupo protegidos do escrutínio legal e democrático. Cada um recebeu do outro aquilo de que precisava: um para continuar no poder, ainda que não mais hegemônico e como peça subordinada da nova força; o outro para se consolidar como a nova metafísica influente, porém dialogando, à sua maneira, com a “tradição” — na verdade, tratou-se de preservar as estruturas arcaicas da República.
Nesse
encontro, ou nesse conluio histórico, ambos saíram ganhando, e só o
Brasil e os brasileiros perderam, é evidente. Um tem a certeza de que o
outro está acima da lei. Fundou-se, assim, uma estranha Aristocracia
Absolutista.
Em 2009.
José Sarney enrolou-se no escândalo dos atos secretos do Senado.
Descobriu-se que a Casa tinha duas gestões: aquela que se dava à luz do
dia e a outra, a real, que se movia nas sombras. Naqueles tempos, dois
notórios moralistas —o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) e o então senador
Aloizio Mercadante (hoje ministro da Educação) — se tornaram célebres
pelas críticas a Sarney. O primeiro, com o estilo circense de sempre,
deu ao peemedebista um cartão vermelho na tribuna do Senado. Mercadante,
líder do PT na Casa, exigia que o
partido apoiasse a moção para levar Sarney ao Conselho de Ética. Como
não conseguiu, anunciou, estimulado por seus seguidores no Twitter, a
renúncia à função de líder em “caráter irrevogável”. Lula o chamou,
deu-lhe uma carraspana, ele continuou líder, parou de pedir que Sarney
fosse investigado e ainda admitiu que errou ao afirmar que renúncia era
“irrevogável”. Um pequeno grande passo para a revolução do caráter e da
língua, que viu o significado de uma palavra se converter no seu
contrário.
Lula se
manifestou publicamente em defesa de Sarney e da maneira mais indecorosa
que conseguiu. Estava ali mesmo, nas terras do Cazaquistão. Nosso Borat
estava cuidando de espalhar mundo afora seu entendimento superior sobre
política externa e tudo o mais que há de grandioso em “sua” humanidade.
Indagado sobre Sarney pelos repórteres brasileiros, deu a seguinte
declaração:
“Eu sempre fico preocupado quando começa no Brasil esse processo de denúncias, porque ele não tem fim, e depois não acontece nada. O Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum.”
“Eu sempre fico preocupado quando começa no Brasil esse processo de denúncias, porque ele não tem fim, e depois não acontece nada. O Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum.”
Está tudo
dito aí. Segundo Lula, alguns homens, pela sua história, não podem ser
tratados como “pessoas comuns” diante da lei. Em todo o mundo
democrático, os heróis costumam ser aqueles que lutaram justamente para
que TODOS PASSASSEM A SER HOMENS COMUNS. No Brasil, Lula nos ensinou que
o certo é o contrário.
Amor com amor se paga
Hoje foi a vez de Sarney, presidente do Senado — e do Congresso — pagar literalmente na mesma moeda. Referindo-se à reportagem do Estadão sobre o depoimento que Marcos Valério prestou ao Ministério Público, disse o “homem incomum”:
“Primeiro eu não li [a reportagem], e, se existiu [o depoimento de Valério], é uma profunda inverdade porque a pessoa que disse não tem autoridade para falar sobre o presidente Lula, que é um patrimônio do País, da história do País, por sua vida e tudo que ele tem feito”.
Hoje foi a vez de Sarney, presidente do Senado — e do Congresso — pagar literalmente na mesma moeda. Referindo-se à reportagem do Estadão sobre o depoimento que Marcos Valério prestou ao Ministério Público, disse o “homem incomum”:
“Primeiro eu não li [a reportagem], e, se existiu [o depoimento de Valério], é uma profunda inverdade porque a pessoa que disse não tem autoridade para falar sobre o presidente Lula, que é um patrimônio do País, da história do País, por sua vida e tudo que ele tem feito”.
Vamos pensar
Sarney poderia ter-se limitado a desqualificar Valério como fonte confiável de informação. Já seria um procedimento complicado (direi por quê), mas vá lá… Notem, no entanto, que ele foi adiante. Valério não seria o único homem carente de moral para criticar Lula; os demais, todos nós, também o são. Sarney está a dizer que este “patrimônio do país”, “por sua vida e tudo que ele tem feito”, está acima da régua com que se mede a moralidade comum — e notem que não se está aqui e em nenhum lugar a falar da vida pessoal. Sarney está a dizer, em suma, que “Lula não é um homem comum”.
Sarney poderia ter-se limitado a desqualificar Valério como fonte confiável de informação. Já seria um procedimento complicado (direi por quê), mas vá lá… Notem, no entanto, que ele foi adiante. Valério não seria o único homem carente de moral para criticar Lula; os demais, todos nós, também o são. Sarney está a dizer que este “patrimônio do país”, “por sua vida e tudo que ele tem feito”, está acima da régua com que se mede a moralidade comum — e notem que não se está aqui e em nenhum lugar a falar da vida pessoal. Sarney está a dizer, em suma, que “Lula não é um homem comum”.
São duas
falas escandalosas numa República. É espantoso que homens públicos digam
isso já na segunda década do Século 21. Já se passaram mais de dois
séculos do Iluminismo Inglês (quem preferir a versão com sangue pode
escolher o francês…).
Esse é o
espírito que se colhe na rede suja da Internet, financiada por estatais,
especialmente bancos públicos. Não se quer saber o que se fez ou que se
deixou de fazer com a coisa pública — é mentira que se esteja
escarafunchando a vida privada de Lula; quando se toca nessa franja, é
porque uma das personagens investigada era de seu círculo de relações
íntimas, mas estava incrustada no escritório da Presidência, em São
Paulo.
E quem negociou com Valério? Esse é qualificado?
Sarney desqualifica Marcos Valério. Huuummm… É, eu também não acho que se deva acreditar cegamente na sua palavra. Ele é quem é e fez o que fez. Foi condenado a mais de quarenta anos por oito crimes.
Sarney desqualifica Marcos Valério. Huuummm… É, eu também não acho que se deva acreditar cegamente na sua palavra. Ele é quem é e fez o que fez. Foi condenado a mais de quarenta anos por oito crimes.
Mas me
digam aqui: e os que fizeram negócios escusos com ele? Esses merecem
crédito? E as reuniões palacianas? Não foram só estas, não! A banqueira
Katia Rabello, em depoimento em juízo, narrou encontros com Dirceu e
Valério na Casa Civil. Sarney tem de dizer em que Dirceu, por exemplo, é
melhor do que o empresário que operou o esquema.
Encerro
Agora já sabemos — e Dilma, infelizmente, quase diz as mesmas palavras de Sarney — por que os petistas estão tão furiosos; agora já sabemos por que a rede suja decidiu chafurdar na lama: toda essa gente considera um absurdo que Lula esteja submetido às mesmas leis dos homens comuns.
Agora já sabemos — e Dilma, infelizmente, quase diz as mesmas palavras de Sarney — por que os petistas estão tão furiosos; agora já sabemos por que a rede suja decidiu chafurdar na lama: toda essa gente considera um absurdo que Lula esteja submetido às mesmas leis dos homens comuns.
Por suas
ditas grandes obras, ele teria conquistado o direito à inimputabilidade e
à impunidade. E ai daquele que ousar dizer o contrário! Ele partem pra
cima: xingam, mentem, insultam, aviltam, ameaçam. Tudo com dinheiro
público.
Por Reinaldo Azevedo
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